Leitura Bíblica: “Ore, pedindo que o Senhor, seu Deus, nos mostre o caminho que devemos seguir e o que devemos fazer. O profeta Jeremias respondeu: — Eu ouvi o pedido de vocês. Vou orar ao Senhor... Tudo o que o Senhor lhes disser em resposta, eu o declararei a vocês, sem ocultar nada.” (Jeremias 42:2-4)
Seguindo a trágica história do Reino
de Judá, Jerusalém estava destruída. O cenário era de escombros, medo e morte.
O pequeno grupo de sobreviventes que restou estava apavorado com o que o
império babilônico poderia fazer a eles e, em pânico, pensava em fugir para o
Egito. É nesse estado de ansiedade crônica que eles procuram o profeta
Jeremias, pedindo que ele orasse para que Deus lhes mostrasse o caminho.
Aparentemente, é um pedido muito espiritual e maduro.
No entanto, o desenrolar desta
história (nos versículos e capítulos seguintes) revela uma das dinâmicas mais
perigosas da nossa vida espiritual e relacional: eles já haviam decidido o que
iam fazer. Eles não queriam a direção de Deus; eles queriam que Deus carimbasse
e aprovasse a decisão que o medo deles já havia tomado. Acompanhando
intensamente esta história, entendemos que este texto é um espelho profundo
sobre como lidamos com as crises e com a verdade:
- O Sintoma das Decisões Baseadas no Medo: "Porque,
de muitos que éramos, só restamos uns poucos". O trauma e a
sensação de escassez ativam o nosso instinto de sobrevivência. Quando uma
família passa por um abalo severo (uma crise financeira, uma quebra de
confiança, o luto), a ansiedade sobe ao nível máximo. Nesse estado de
"alerta", as pessoas tendem a tomar decisões impulsivas,
baseadas exclusivamente no medo da dor (fugir para o Egito), e não na
sabedoria. Por isso precisamos aprender a identificar quando a ansiedade,
e não a fé, está governando nossos sentimentos, pensamentos e decisões!
- A Armadilha da Falsa Submissão: É muito
comum em dinâmicas de aconselhamento familiar ou pastoral vermos pessoas
dizendo: "Eu só quero saber qual é a vontade de Deus" ou "O
que você acha que eu devo fazer?". Mas, no fundo, a pessoa já tomou a
decisão e está apenas buscando validação. Se a resposta for diferente do
que ela quer ouvir, ela se rebela (exatamente o que este povo fez com
Jeremias depois). A verdadeira submissão exige que antes de pedirmos a
direção, entreguemos o controle do resultado. É orar dizendo: "Senhor,
mesmo que o Teu caminho contrarie os meus medos e a minha lógica, eu estou
disposto a obedecer".
- A Integridade e a Sinceridade (Não Ocultar
Nada): "Eu o declararei a vocês, sem ocultar nada".
Jeremias sabia que a resposta de Deus provavelmente não seria o que aquele
povo traumatizado queria ouvir. Em um sistema familiar ou em uma comunidade
de fé, por exemplo, a nossa maior tentação é editar a verdade para evitar
conflitos. Nós sonegamos informações difíceis no casamento, suavizamos as
consequências dos erros dos nossos filhos/as ou evitamos confrontar o
pecado, tudo para mantermos uma falsa paz. Jeremias nos ensina o princípio
da "diferenciação": uma vida madura suporta o peso da
desaprovação dos outros, mantendo o compromisso inegociável de falar a
verdade em amor, sem ocultar o que precisa ser dito.
Conselhos Pastorais:
- Sonde Suas Intenções: Você tem pedido a
opinião de Deus (ou do seu cônjuge/conselheiro/pastor) sobre alguma
decisão importante, mas no fundo já está decidido a fazer do seu próprio
jeito? Peça a Deus a coragem de soltar o controle e ouvir de verdade.
- Não Edite a Verdade Pelo Medo do Conflito: Há
alguma verdade difícil que você precisa comunicar mas está adiando por
medo da reação das pessoas? Prometa a si mesmo, assim como Jeremias, falar
a verdade de forma integral e mansa, sem "ocultar nada".
- Acalme a Urgência: Se você está se sentindo
pressionado a tomar uma decisão precipitada porque está com medo das
circunstâncias ("só restamos uns poucos"), pare. Respire. Sabemos
que as piores decisões da nossa vida são tomadas quando estamos fugindo da
ansiedade.
Oração do Dia: “Senhor
nosso Deus, como é fácil nos enganarmos. Confessamos que, muitas vezes,
vestimos os nossos medos e as nossas teimosias com uma capa de espiritualidade,
pedindo a Tua direção quando, na verdade, só queremos a Tua aprovação para os
nossos próprios planos. Perdoa e nos conceda a maturidade de não tomarmos
decisões governados pela ansiedade e pela crise. Levanta nas nossas famílias e
na Tua Igreja pessoas que ouvem a Tua voz e têm a coragem de falar a verdade
sem ocultar nada, mesmo quando isso for impopular. Em nome de Jesus, Amém.”